Na tarde desta quarta-feira (9), um acidente envolvendo uma viatura da Polícia Militar, foi registrado por motoristas que passavam pela Rua Konrad Adenauer, no bairro Tarumã em Curitiba.

Os vídeos viralizaram pelas rede sociais e rapidamente viraram motivo para inúmeras críticas, veja o vídeo:

Analisando superficialmente, a culpa foi exclusivamente do policial que dirigia a viatura ou aconteceu algo que pudesse prejudicar a dirigibilidade do veículo?

Decidimos conversar com um especialista que em 2016 disponibilizou um documento contendo informações críticas sobre as viaturas do modelo Mitsubishi Parejo Dakar, adquiridas pelo Governo Estadual como frota de inúmeros batalhões de todo o estado.

O especialista que é um policial militar tem um currículo invejável quando o quesito é veículos e direção. Ele já foi piloto de rally e realizou inúmeros cursos de direção defensiva. Ele foi consultor de algumas empresas automobilísticas e em 2015, após a aquisição dos veículos Pajero Dakar ano 2013, percebeu relato de companheiros que relatavam problemas graves de travamento momentâneo do sistema de direção em manobras rápidas do volante tanto em operações de esterço como em operações de contra-esterço.

O especialista decidiu realizar testes e constatou que em inúmeras situações o sistema de direção travou, obrigando-o a interromper várias manobras de retorno para abordagem de suspeitos avistados no contra fluxo da via, enquanto a viatura trafegava em baixa velocidade durante o patrulhamento, pois no momento em que a direção é esterçada e efetuada a manobra, em seu retorno a mesma trava, vindo a invadir a pista contrária. Também em manobras de mudanças bruscas de direção para evitar colisões, manobra esta conhecida internacionalmente como “teste do alce”, a viatura teve travamento momentâneo, o que faz a mesma iniciar a manobra, porém com resultado imprevisto de conclusão da mesma. O policial também relatou que em situação de acompanhamento a mesma se comporta de maneira imprevisível, pois em um momento a direção responde e em outro trava, deixando policiais e demais usuários da via expostos a situações de imprevisibilidade não somente da atitude do marginal, mas também do material policial empregado. Para as situações de curvas “S”, em que a viatura pode estar em condição de aproximação de ocorrências ou mesmo em acompanhamento, a condição da via não é prevista, e para isso a manobra de contra esterço se faz necessária para correção de trajetória que pode ser alterada por resíduos de lubrificantes de outros veículos, água proveniente de tubulações e bueiros, sujeiras tais como areias, pedriscos de recapeamento e demais detritos, sendo que até mesmo a diferença de rugosidade de um tipo de piso para o outro pode causar a mudança involuntária de trajetória da viatura, o que exige a manobra de contra esterço, a qual infelizmente poderá não ocorrer devido ao travamento momentâneo do sistema de direção.

Nesta situação, se a viatura estiver a 60km/h e a mesma perder a trajetória, segundo a NHTSA autoridade de trânsito americana, o veículo irá percorrer 25 metros em 1,5 segundos, tempo de reação média de motoristas comuns do momento o evento até a percepção e reação. Se um condutor tiver uma reação na metade deste tempo, ainda assim teremos 12,5 metros de veículo em condição crítica.

O especialista afirma que nenhum técnico da Mitsubishi irá confirmar, concordar em partes ou reconhecer esta falha no sistema, e é pouco provável que algum técnico/engenheiro independente irá assinar tal laudo condenando um fabricante e fechando as portas de maneira permanente para a sua carreira no setor. O que por vezes pode sim acontecer, é em qualquer laudo, opinião ou explanação sobre o sistema, o profissional após constatar a falha, se resguarde pronunciando a frase “poderá ocorrer”, mas nunca a palavra “ocorre”. Não é exclusividade deste fabricante, trata-se de um procedimento padrão obviamente velado entre os grandes fabricantes, seja de carros, motocicletas ou armas, e em momento algum haverá a assunção de culpa do fabricante sobre este tipo de falha, visto a possibilidade de acusações judiciais pela fabricação de produtos ou componentes que possam vir a lesionar gravemente, permanentemente ou mesmo levar a óbito o usuário ou terceiros. Como procedimento corriqueiro os sistemas são revistos, quando detectados e se forem economicamente viáveis são modificados de maneira oculta, sendo enviados boletins técnicos apenas para os setores de manutenção das concessionárias, e quando divulgados a público pela imprensa especializada em automóveis por exemplo, são tratados como “atualização/modernização”. Podem também ter seu preço reajustado para mais ou para menos dependendo do público o qual identificou o problema, estratégia esta em que consiste em oferecer mais equipamentos e limitar o número de versões ou caso contrário, deixar um modelo mais básico e colocar outro produto que supra a necessidade de mercado. Por fim dependendo da situação e tipo de falhas são simplesmente retirados de linha, sempre com uma justificativa de “adaptação ao mercado” por exemplo, mas nunca a assunção da falha. Por incrível coincidência, o modelo Pajero Dakar recebeu uma gama de acessórios muito mais extensa e tecnológica nos modelos comercializados, e sofreu um aumento de mais de 70 mil reais desde o modelo 2013 até o modelo atual, inviabilizando totalmente a sua aquisição para frotas policiais.

A constatação de problemas do sistema de direção da Pajero Dakar, sem dúvida seria algo passível de recall, mas com um custo elevadíssimo, e com benefícios somente para alguns órgãos governamentais, (que por sua vez seria muito improvável uma nova compra das atuais opções Mitsubishi), menor ainda seria o número de unidades que realmente tem como atividade fim, explorar o deslocamento rápido de pronto atendimento à população em risco de vida, por marginais durante situações em andamento. Portanto, além de não ser interessante para a imagem do fabricante, por ser economicamente inviável, e ter afetado uma parcela ínfima de consumidores, não houve o recall do sistema de direção, e coincidentemente a Pajero Dakar ficou muito mais equipada e totalmente inviável para aquisição de frota.

Somente no Distrito Federal, foram mais de 23 casos de capotamento envolvendo viaturas deste modelo. Em grande maioria dos casos em todo o Brasil, houve similaridade gritante. Todos que capotaram estão com a frente intacta para impactos frontais, indicando que houve a perda de trajetória a qual não foi possível recuperar em virtude da direção.

(Capotamento de Pajero Dakar da Polícia Federal. Foto: Colaboração)

Nos pouquíssimos casos em que houveram a colisão frontal, a mesmo só ocorreu pelo fato do obstáculo estar ainda mais próximo do ponto de impacto, e todas em saída de curva, demonstrando que os policiais sempre tiveram o controle do veículo, e que durante as correções, foi a falha no sistema de direção que causou os acidentes.

Ainda em 2016, um policial rodoviário fez um vídeo com uma viatura deste modelo, mostrando o problema. Uma questão que chama a atenção é que no vídeo, a viatura está parada, porém é possível notar o travamento da direção dependendo a rotação do motor, veja o vídeo:

Ainda é muito cedo para afirmar se o acidente foi provocado por imperícia ou se houve realmente a falha relatada pelo especialista.

Na internet muitas pessoas afirmaram que elas como contribuintes que terão que pagar o conserto da viatura, porém, a grande maioria dos acidentes, os estragos são pagos pelo policial que estava dirigindo, caso comprovado culpa.

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