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E quando a rentabilidade depende do controle da TV, somos cúmplices?

Pode perguntar para toda mãe ou qualquer pai: na ordem natural das coisas, enterrar um filho é um dos mais terríveis pesadelos em vida. E se houver violência, crueldade ou sofrimento envolvido então, a comoção ultrapassa a seara familiar e envolve toda a sociedade. “E se fosse na minha casa? Com meu filho?” o normal é ter empatia com a tristeza do próximo. Mas o que falar quando a tragédia é propositalmente gerada para montar um espetáculo?

A história de Marcela não foi diferente das de milhares de mulheres em todo o Brasil. Moça de 21 anos, grávida de 4 meses, que é morta pelo namorado inconformado com os rumos do relacionamento. Caso clássico de feminicídio… Tão clássico que ocorre a cada 2 horas no Brasil! No 5º país que mais mata mulher, infelizmente, isso não é nenhuma novidade.

É importante destacar aqui que a intenção não é banalizar o feminicídio. Por favor, bem longe disso! Na modesta opinião de quem vos escreve, esse é um dos tipos de crimes mais graves que deveria ser combatido com absoluto rigor. Quando um homem trata a mulher como sua propriedade, se aproveitando da confiança que ela nele a tem, matando-a simplesmente por ser uma mulher, há uma evidente demonstração que para o assassino a vida tem pouco ou nenhum valor.

Mas nessa quero ir mais além, demonstrando que a morte de uma mulher tem valor sim! Um outro valor que pouquíssimo consideramos na coletividade. O valor da publicidade e dos lucros da exposição que o feminicídio gera na TV.

Voltamos para Marcela! Para quem não acompanhou, em resumo, é importante saber que a moça ficou desaparecida desde o dia 8 de fevereiro. Ela vivia um relacionamento abusivo e permeado por inúmeras agressões, cenário quase que certo para o resultado ocorrido. Sabendo de tudo isso, o famoso programa de TV chama a mãe da vítima, Dona Andrea, ao vivo. Divide a tela em três: apresentador, foto da filha e entrevistada, para dar a fatídica notícia: o namorado havia confessado o crime! A mãe, aos berros, desmaia em frente às câmeras que continuam ali, registrando cada segundo, constrangimento e consternação em estados primitivos, o urro materno pela perda irreparável. Absolutamente mais nada poderia ser dito. Porém os sinalizadores do Ibope diziam muito: eram atingidos picos esperados pelos seus diretores.

Na prática, Marcela se tornou mais um número. Um número nas estatísticas, números de audiência, números nos bolsos dos patrocinadores e um número de espetáculo feito pelos programas de TV que se alimentam de tragédias, sem demonstrar compaixão e dignidade pelos familiares que ficam. Dona Andrea teve a pior dor de sua vida televisionada, em Rede Nacional, disponível no Youtube e compartilhada em grupos de desconhecidos pelo Whatsapp. Numa possível ação judicial, esses danos poderiam ser reparados?

Mas precisar ir tão longe? Isso sequer é cogitado pela emissora ou pelo apresentador, que em nota se desculpou com seus telespectadores – pela enorme crítica gerada, mas revelou que a Dona Andrea está “grata” pela transmissão. Afinal, entre tantas Marcelas, a dela não ficou “invisível”.

O caso nos remete à 2008. Daquela vez Eloá, 22 anos, encarcerada pelo ex-namorado, novamente inconformado com o fim do relacionamento. Cada ato desse espetáculo sendo transmitido de telejornal à programa feminino de variedades. A TV praticamente assumiu as negociações de libertação, mas a tragédia já era anunciada. Fazia parte do jogo da audiência, já que as pautas de um longo processo renderiam mais que um final feliz. Mulheres sem voz rendem mais que debates sobre a violência contra elas.

Anos se passaram, voltamos ao presente. Parece que a lição dos espetáculos televisionados ao vivo não foi aprendida. E daqui umas semanas, quando as cortinas se fecharem, outros espetáculos entrarão em cartaz. São pelo menos 12 Marcelas ou Eloás morrendo todos os dias… Encontrar personagem não vai dar trabalho algum… Os diretores só vão precisar de novas estratégias de marketing. Se é que já não as têm!

O texto é de responsabilidade total do autor, e não reflete necessariamente a linha programática e ideológica do Plantão190.

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