Policiais civis da Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic/Deinter 8) deflagraram, na manhã desta terça-feira (15), a ‘Operação Anteros’ em diversos estados do país. As investigações identificaram uma organização especializada em fraudes pela internet em que os criminosos utilizavam perfis falsos maliciosos para aplicar golpes. Foram identificadas 437 vítimas e um prejuízo estimado em mais de R$ 24 milhões. Na região de Presidente Prudente, foram 12 vítimas ouvidas formalmente.

A operação é uma fase originada pela a operação ‘Voo de Ícaro’, que teve o objetivo de desarticular uma organização criminosa que atuava em estabelecimentos prisionais com a entrega de materiais com drones, no ano de 2019. Com a análise de celulares de presos naquela ação, foi identificada uma “farta movimentação bancária”, que motivou uma nova etapa investigativa.

“Com o uso de ferramentas de inteligência e investigação formal, que perdurou por mais de 1 ano, os investigadores descobriram uma complexa organização criminosa que possui tentáculos em diversos países e grande atuação no Brasil”, informou a corporação.

Os criminosos, formado na maioria por nigerianos, eram conhecidos como “romance scammers”, especialistas em fraudes na internet com o uso de perfis falsos para cooptar as vítimas. Eles extorquiam as pessoas e com os valores recebidos faziam a lavagem de capitais. O esquema foi identificado em, ao menos, 24 Estados do país.

Os crimes eram cometidos por meio de redes sociais ou por aplicativos de namoros virtuais, onde eram enviados solicitação de amizade a potenciais vítimas, em especial funcionários públicos, idosos, independente do sexo.

Após contatos iniciais de amizade, “sempre sutis e de diálogo convincente”, tinha início o “namoro virtual”. Aos poucos, grande parte das vítimas acabava por enviar fotos ou vídeos íntimos que, posteriormente, eram utilizados na extorsão.

Outro exemplo é o chamado “fakelover”, denominação dada pela investigação ao núcleo que mantinha os contatos diretamente com as vítimas, cujo autor declarava morar no exterior e informava que recebeu uma herança e precisava enviar para o Brasil, incentivando a vítima a ajudá-lo com promessa de vantagem, descreveu a Polícia Civil.

O golpista pedia para que a vítima recebesse o material em sua residência. Contudo, quando o suposto material “chegava” ao Brasil, outra pessoa se passando por funcionário da alfândega contatava à vítima e informava que, por se tratar de material cujo ingresso no país necessitava do pagamento de impostos, precisava da quitação do imposto de importação, mas que por um valor menor conseguia a liberação do material.

A vítima acaba por realizar esse pagamento e marcava a data da retirada do produto. Nessa data, novamente recebia ligação informando que para a liberação o valor era em dólares e a vítima havia depositado em moeda brasileira, necessitando de complementação. Havia ainda outras desculpas como taxas de diplomacia, taxas de transporte de valores, entre outros.

Mesmo realizando todos os depósitos solicitados, a vítima não conseguia a liberação do material. “Ao insistir que queria o produto ou iria denunciar a polícia, por vezes, os criminosos consumavam outro crime, ao informarem que a vítima havia caído em um golpe, ameaçam que se denunciasse às autoridades teria suas fotos comprometedoras divulgadas em redes sociais. E, dessa forma, exigia ainda mais valores para a não consumação”, salientou a corporação.

Esse tipo de crime, segundo os investigadores ocorre desde 2014, contudo muitas vítimas por vergonha, constrangimento e medo acabaram não denunciando o fato para a polícia.

A Polícia Civil conseguiu demonstrar como a organização criminosa era estruturada:

  • Fakelover: responsável por contatar as potenciais vítimas.
  • Oficial: se passava por funcionário da alfândega, diplomatas e outros
  • Recrutadores de contas/operadores: aqueles que repassavam o dinheiro rapidamente entre várias contas, após o depósito, dificultando o rastreamento.
  • Correntistas: recebiam de 7% a 10% dos valores arrecadados somente para emprestar sua conta corrente e fomentar a operacionalização, proporcionando o aumento crescente dos crimes, como eixo necessário de um mesmo mecanismo.
  • Agentes da lavagem de capitais: tinham a finalidade é “esquentar”, ou seja, tornar o dinheiro ilegal em lícitos imóveis.

Durante as investigações foram identificadas 437 vítimas que registraram ocorrência dessa mesma natureza criminal e que tiveram prejuízo superior aos R$ 24 milhões. Em todos os Estados da Federação, contando as subnotificações, os números superam 2 mil vítimas que tiveram um prejuízo estimado, nos últimos três anos, de R$ 250 milhões movimentados por essa organização criminosa.

Além de determinar o indiciamento de 210 pessoas, a polícia representou pelas medidas cautelares, com parecer favorável do Ministério Público do Estado de São Paulo e deliberação convergente do Poder Judiciário, pela decretação de 181 mandados de prisões preventivas, 216 mandados de busca e apreensão e o sequestro de R$ 5 milhões, entre bens móveis e imóveis, além do bloqueio e também sequestro bancário de 329 contas, de pessoas físicas e jurídicas, “visando afastar a continuidade dos delitos, protegendo as vítimas iminentes, bem como na tentativa de recuperação e devolução dos valores desviados”.

Até o momento foram cumpridos 210 mandados de busca e apreensão, 104 mandados de prisão cumpridos, apreendido aproximadamente 2 milhões, 12 veículos apreendidos, além do registro de 1 flagrante por tráfico de drogas, com 11,5 kg de cocaína.

Das 104 pessoas presas, 99 foram em São Paulo e na Grande SP.

Participaram da operação 820 policiais civis dos Estados de São Paulo; Roraima; Paraná; Santa Catarina; Minas Gerais; Bahia e Ceará.

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